Um Guerreiro,
navegador de altos mares
Simbologia: "A partir deste capítulo sempre que aparecer (...) ou (...!!!)... são indicativos de que os pensamentos das personagens, vão além do que está escrito.. e também indicarão que o texto foi retirado de poesias de ReginaCélia."
Mas esta noite reserva uma cilada para Clarissa... de repente ela vê adentrar a sala alguém com o apelido de "navegador", e este, parece que será mais um daqueles que entrará, observará e... sairá sem falar com ninguém. Entra e se mantém em silêncio. Clarissa observa e resolve tomar a iniciativa:
– O navegador quer teclar? Ao que ele responde:
– Oh! sim. Quero sim, de onde você tecla?
– De muito longe amigo (...) do outro lado do mundo (...) onde os dias nascem repletos de luz e morrem no silêncio das tardes que caem! E você, de onde tecla?
– Eu?? Também de longe (...) vivo no mundo dos sonhos (...) da fantasia (...) de seu paraíso até onde estou existem quilômetros e quilômetros de distância a percorrer.
– Como sabe? Se não lhe dei informações geográficas?!
– Sei. Porque você ainda vive onde o sol nasce e se põe todos os dias, a noite escurece mas termina em um novo dia de sol, os pássaros cantam e flores se espalham pelo chão (...) Não foi o que você disse? Porém eu vivo onde só existe a noite, pois o meu dia embora e por certo, cheio de luz e calor como o seu, eu não o quero viver.
– Nossa!!! – Então você está mesmo, amigo, muito distante (...) num mundo imaginário, criado talvez, só por você.
– É.. acho que é assim. Mas como é seu nome?
– Meu nome é Clarissa e o seu?
– O meu é Guerreiro, navegador de altos mares, assim me batizei, porque vivo mar adentro buscando a minha felicidade, que perdi não sei aonde.
– Bom.. em que mar navega, Guerreiro?
– Eu? No mar dos meus sonhos (...) da minha esperança de um dia ser feliz.
– Ah! sim! (...) e para ser feliz, o que lhe falta?
– Falta uma Deusa, uma deusa do amor, que encha meus dias de luz e minhas noites de esplendor.
– Você vive só, Guerreiro? Da maneira que me fala, dá-me a impressão de que é um solitário, sozinho no mundo.
– Sim. Sou um solitário, vivendo na multidão... tenho conhecidos, amigos, companheira, família (...) mas me sinto sem ninguém, porque somente um grande amor pode preencher o vazio de um homem.
– E você, Clarissa? Fale-me de você.
– Sou alguém que suporta a própria solidão, de estar só de verdade (...) afastada do mundo real (...) fazendo a minha própria realidade num jardim onde plantei as flores de minhas esperanças e um pomar onde espero colher os frutos dos meus sonhos.
– Oh! Clarissa, não quer ser a minha deusa do amor, por uma noite apenas? A minha Rainha, a minha Cinderela ou apenas uma MULHER? Serei seu Rei... seu deus ou apenas seu HOMEM e por uma noite lhe farei feliz. Não quer? (???)
– Você está falando de amor virtual, Guerreiro? É isto? É disto que está me falando?
– Sim. Estou falando de uma noite de sonho e fantasia, um mergulhar no oceano de nossa volúpia interior, de navegar por mares nunca conhecidos e saciar a sede de realidades não vividas. Você não quer? (???.....)
– Não sei se deveria. Seria sonhar viver o que não se viveu.. Viver o que não existe. Sentir o que não se sente. (........!!!!)
– Oh! Clarissa, (...!!!) não seja relutante!!! Nossas almas vencerão as distâncias e se unirão no êxtase de um amor puro sem a contaminação física da realidade.
– Será Guerreiro? Não sei. (....!!!)
– Diga-me, como você é Clarissa?
– Eu? - Como eu sou? - Disse-o você. – Você não acaba de dizer quem sou e como sou? – Sou, hoje, uma rainha... vestida de púrpura e rendas, envolta em laços, sapatos dourados da Cinderela e minhas roupas esvoaçam como as de uma deusa.... perdida já, no mundo de fantasias para os quais você me convida. Sou leve como os seus sonhos e pura como a sua fantasia, meu corpo não tem formas, sua mente me dará os contornos de suas ânsias e das suas esperanças. E você, Guerreiro, navegador de altos mares, como é?
– Você também o disse. – Eu sou o seu Guerreiro, o seu Rei, o seu Fidalgo (...) que de espada em punho, vencerei os espaços e todas as intempéries para ir ao seu encontro e acordá-la deste seu sono de Princesa, de Cinderela Adormecida e a transformar em rainha. Visto-me com armaduras de um cavaleiro, monto o fogoso cavalo dos Desejos, uso as esporas que me foram dadas pela minha fada-madrinha chamada "Sedução" e que tem por garras a alucinação da conquista.
– Então venha Guerreiro, que eu o espero para lhe amar nos lençóis de seda que já estou tecendo com minhas mãos de deusa para suas fantasias, enquanto no tempo e no espaço, você vence as distâncias neste tão garboso cavalo batizado de "Desejos", orientado pela madrinha "Sedução" e alimentado pela alucinação da conquista.
– Oh sim, minha deusa, Cinderela, Rainha, me dê forças para que possa vencer tanta distância, alimentando o meu cavalo Desejos com a visão de sua figura de mulher. Fale-me de você.
– Tenho os cabelos da cor dos seus sonhos, repletos de matizes cintilantes e eu os estendo pelo seu caminho como estrelas que lhe iluminarão para que assim possa vir com rapidez até onde estou.
– Sim.... continue..!!!.. fale-me mais de você.(...!!!)
– O meu corpo é leve como das sereias que dançam no fundo dos mares por onde navega a sua fantasia... e também etéreo como de anjos que vagueiam no céu onde seu olhar se perde em êxtase, embriagado pelo vinho que lhe serviu sua madrinha "Sedução" e alimentado pela sede de conquista.
– Ah.. oh.. deusa do amor.. fale-me mais... mais... alimente mais o meu cavalo Desejos... para que se transforme num raio lampejante e possa cortar os céus (...) voar pelos caminhos da minha noite escura e transformar em realidade os nossos sonhos.
– A minha boca pequena tem os lábios em forma de pétalas de rosas, onde a sua fome de amor sorverá em gostas o mel que produzirei na minha loucura e ânsia de entrega, já entontecida que estou pelos ataques de sua madrinha "Sedução" que alonga sua vara no ar e emite sons alucinantes da conquista.
– Ah.. minha deusa... (...!!!!) fale-me mais... mais... quero que excite o meu cavalo Desejos para que corra mais e mais pela imensidão do céu.
– Os meus seios são dois montes que barram a névoa que cobre os campos nas manhãs de inverno.. e ao mesmo tempo eles têm o tépido calor dos dias de verão retidos pela mata oculta e que sopra das encostas para os dois montes, os quais, ao mais suave toque, vertem águas cristalinas que alimentam a sede de amor dos homens.
– Fale-me de suas mãos... por favor, fale!
– Minhas mãos são suaves e macias como a pura seda, ternas e ágeis como as de uma rainha, e com o toque delas no seu corpo, aliviarei o seu cansaço de tão longa viagem. Meus dedos longos e acariciantes arrancarão sons maravilhosos de seu corpo que gemerá e estremecerá... e será, então, como se uma orquestra inteira tocasse uma música que só os nossos ouvidos ouvirão, conduzindo-nos assim até ao paraíso de nossos sonhos.
– Sim... sim... em minutos minha deusa, estarei chegando, para sorver o mel de seus lábios, sentir o calor do seu corpo, matar a minha sede nas águas cristalinas de seus montes e ouvir a música do nosso êxtase (!!!...) Em minutos, minha deusa, estarei com você para ser feliz. Espere... não se vá!!! Minha espada se ergue (...!!!), meu corpo balança ao galope do meu cavalo Desejos e minha alma suspira em ânsias não contidas.
– Venha Guerreiro, eu lhe espero, já forrei a sua cama com pétalas das flores colhidas no jardim das minhas esperanças. Já preparei o seu banho com o bálsamo perfumado extraído do sumo de todas as minhas crenças. E das matas que se escondem por detrás dos montes, a pequena fonte já começa a verter uma água cristalina, onde matará a sua sede.
– Sim.. oh! deusa dos meus sonhos, chegarei em instantes para dormir no seu regaço. Ergo de novo a minha espada de Guerreiro e lanço aos céus o meu grito de batalha, açoitarei meu cavalo Desejos com as esporas da madrinha Sedução impulsionando-o a um galope de maior força e mais velocidade... não quero lhe fazer esperar.
– Ah.. Guerreiro, navegador de altos mares, venha... já sinto em meu peito o tropel do seu cavalo Desejos... é como um chicote que me estremece... é como um veneno que me entorpece... é como forte luz que me cega.... vem que meu ser lhe reclama... vem que minha alma lhe chama.
E aquela noite, Clarissa e o Guerreiro realizaram as suas fantasias, subiram pelas encostas dos montes que conduzem ao paraíso e lá de cima viram o mundo com olhos incrédulos de dois apaixonados, ou apenas, dois alienados do mundo real.
Clarissa sente-se tonta. Como pudera ela entregar-se assim a um devaneio tão louco? Tão estúpido? Parecia criança. Tonta... entontecida... sentira de repente, no corpo e na alma, o mesmo fogo... o mesmo desejo dos seus 20 anos e fora capaz de correr e de brincar com a mesma ingenuidade e a mesma segurança. Sentira-se jovem de novo. Sentira-se outra vez, MULHER. Sentira-se desejada... amada... e amara com todas as forças que seu ser, durante tanto tempo, se negara a entregar.
Precisa dormir. A noite vai alta... é quase hora de se levantar e cuidar das suas flores, dos seus animais, mas se sente morna, lânguida e um sono suave a faz dormitar, enquanto os raios do sol vêm beijar-lhe as faces pela vidraça onde a cortina ficara entreaberta; é como se fadas que povoam a noite estivessem ali a espreitar a sua fantasia, os anjos quem sabe a tivessem vindo segurar, no momento exato, para que não se perdesse numa loucura total.
Clarissa acorda assustada. O sol já vai alto no céu. Oh! Deus!... Oh Deus! E suas plantas! (...) não acordara a tempo de molhá-las, de retirar-lhes a geada; e o sol com certeza, vingativo e zombador já devia ter queimado todas as rosas de seu jardim, destruído todo o verdor de seus canteiros. Ah!... mas como pudera fazer isto? Como? Seria uma irresponsável? Dormir até tão tarde!
E os animais?... E os animais?... Onde estariam?... Bom.. estão todos ali, enfileirados no portãozinho que dá para a cozinha esperando a sua ração do dia. E a cadelinha? Ah.. cá está ela.. dormitando ao pé da cama.. como se nada demais tivesse acontecido. Ao ver Clarissa se levantando, salta de alegria, beija-lhe as mãos numa carícia terna, como se dissesse: "Não se atormente.. isto acontece.. foi só uma vez... vamos.. não se atormente.. estou aqui, eu lhe compreendo!"
Clarissa corresponde ao afago da cadelinha "Lila" e levanta-se, meio desajeitada, como se tivesse bebido a noite anterior; corre à cozinha e põe o café para fazer. Tomado o café, sai meio constrangida ao encontro das suas flores pensando em lhes pedir perdão por não as ter lavado e tirado a geada antes do nascer do sol.
Chega ao jardim e não sabe como se perdoar. As suas rosas, que no dia anterior estavam lindas e viçosas apesar do inverno rigoroso, agora pendem tristonhas de seus caules, machucadas pelos raios do sol. A grama pálida reclama. Ah! que maldade.. que maldade. Ela, Clarissa, fora culpada por tanto estrago.. dormira demais. Por que dormira?
Dormira porque precisava continuar sonhando.. pensar que tudo que sentira na noite anterior fora realidade. Dormira para continuar a ser rainha, para dar continuidade da sua posse ao Guerreiro, na vã ilusão de que o sonho não acabaria ali.
FIM DO QUARTO CAPÍTULO - PARTE 2 Campo Limpo Paulista - ano 2001
autora: Regina Célia de Souza
Direitos Autorais Reservados
Bem vindo à Clarissa
Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.
Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.
Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.
Grata pela compreensão
ReginaCelia
ReginaCelia
terça-feira, 8 de março de 2011
Clarissa - Guerreiro - Navegador - capítulo IV - parte 2
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