Bem vindo à Clarissa

Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.

Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.

Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.

Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.

Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.

Grata pela compreensão

ReginaCelia
ReginaCelia

terça-feira, 8 de março de 2011

Clarissa - Anjos e Demônios - Capitulo V

Simbologia: "A partir deste capítulo sempre que aparecer (...) ou (...!!!)... são indicativos de que os pensamentos das personagens, vão além do que está escrito.. e também indicarão que o texto foi retirado de poesias de ReginaCélia."


O dia transcorre como sempre; um sol tépido de inverno lá fora, e na casa um vazio, um quase nada a fazer. O silêncio interno ensurdece. As perdas daquela manhã são irrecuperáveis: – nada a fazer, a não ser esperar que a natureza e os próximos cuidados façam a grama reanimar-se e as flores mortas caiam para dar lugar ao nascer de brotos sadios que desabrocharão lindos de novo – é como na vida; a cada ilusão que morre uma nova nasce, mais forte e mais bonita.

Clarissa passa o dia recolhida em si mesma, pensativa. Dentro dela há uma mistura confusa de sentimentos de alegria, remorso, auto-descoberta, auto-desconfiança e seus pensamentos voam, voam mundo a fora, voltam ao passado, vêm ao presente, se alongam no futuro. Estremece... (...!!!) Estremece de medo de si mesma, medo daquela mulher escondida que tinha dentro de si e que não conhecia e que na noite anterior aflorara com toda a sua força, seus enigmas, e até mesmo com um certo despudor.

Descobria assim, de repente, que ainda era uma mulher inteira para o amor; que sua emoção reagia aos estímulos das fantasias de sua mente e que seu corpo ainda era capaz de entrar em descompasso ao som de uma voz masculina. Aquilo tinha sido uma experiência nova, estranha, inebriante, e a qual não quer e não deve dar importância pois talvez ou quase certo, não se repetiria.

Mas Clarissa não consegue parar de pensar. Examina-se no espelho. Seus olhos amortecidos pela idade têm um brilho novo, excitante. Sua pele parece que da noite anterior para o nascer do dia, conquistara uma cor diferente, viçosa, gostosa ao toque de suas mãos. Caminhando pela casa, meio sem rumo, sente que seu corpo balança, leve, com aquele gingado bem feminino, juvenil quase, provocante, e o qual há muito não mais percebia em si mesma.

– "Oh! Não queria... não quero continuar pensando..." Mas... mas... sente-se jovem de novo e mesmo a solidão que a atormentara tanto durante meses, parece agora uma perfeita cúmplice para os seus devaneios...

– "Ah! Bendita solidão!" Bendito silêncio em volta de si, que a deixa então devanear, perdida em seus próprios pensamentos. (... ... ... !!! !!!)

– "E o Guerreiro?... Como se sentiria ele?" – Clarissa não sabe, não tem a menor possibilidade de saber.

– "Mas será que ele, também, guardara aqueles momentos de êxtase e de sonhos, passados juntos num dos compartimentos de suas lembranças?... Será? Ou será que ao desligar o computador, a imagem de deusa que ele criara dela, Clarissa, também fora apagada junto com os últimos lampejos da tela?"

Gostaria de parar de pensar. Não pode se prender a algo tão efêmero. Fora um acidente de percurso durante as suas viagens na internet. Guerreiro, aquela hora do dia, ocupado com sua vida real, família, negócios e etc, não se lembraria mais da noite anterior. Tinha sido assim com as amigas de chat. Elas lhe confidenciaram em diversas ocasiões de seus papos secretos, as suas ilusões e decepções dos encontros virtuais. E Clarissa procurara então se resguardar o máximo possível dos ataques masculinos durante alguma conversa no secreto. Mas (...!), mas (...!) finalmente, caíra ela também, nas malhas do romance virtual, que na maior parte das vezes não dura mais que uma noite ou algumas semanas e aqueles relacionamentos, que se prolongam além destes prazos, terminam no primeiro encontro, quando olhos nos olhos, corpo no corpo, se descobre que... tudo... tudo... não foi mais que fantasias... loucuras... alucinações. O outro de fato não existe tal como o criamos em nossa mente. Existe sim, na sua conformação real; o que significa muitas vezes ser um indivíduo completamente diferente e que nada tem a ver em semelhança física ou emocional com aquela que tanto amamos em nossas aventuras e noites na net. Pois, de fato, a figura amada na net é uma criação exclusiva de nossas fantasias.

Clarissa é uma mulher simples, vivera para o lar, tivera praticamente um único homem a devastar-lhe os segredos de seu corpo; os que vieram depois de sua viuvez foram casos tão efêmeros e sem nenhum significado afetivo; portanto, ela prefere sempre lembrar apenas daquele homem com o qual de fato dividiu a sua juventude, a sua beleza, a saúde, a doença, os sonhos e a construção de uma vida. Fora em essência, mãe, esposa, dona de casa, sempre vivendo num clima de economia, pois não sendo pobres e nem ricos - remediados talvez, o marido nunca dividira com ela os assuntos relativos a dinheiro e negócios, trabalho, etc. Vivera da aceitação do que lhe era dado e sempre tentando cumprir com seus deveres diante do exigido pelos costumes do que deve ser uma boa esposa. Em conseqüência, muito pouco de vida social, poucos amigos, poucos passeios e pouca... (... ...) ... mas muito pouca vaidade.

Esta conformidade de vida, entretanto, não impediu Clarissa de ler jornais, revistas e livros, assistir televisão, ouvir rádio e se manter dentro da realidade da vida e do mundo que continuava girando e se transformando além das fronteiras de sua casa. Sempre ouviu os relatos e confidências das poucas amigas e participou das fofocas da vizinhança, de comentários da redondeza... e assim, embora simples e caseira, Clarissa tinha uma visão bem estruturada da realidade do mundo; e desde há dois meses em que iniciara suas viagens pela internet, colocara-se muito na posição de espectadora, de receptadora; e, na análise fria das situações, logicamente criara para si mesma uma espécie de armadura para se defender, tal como na vida real, das fofocas que rolam em chats e dos possíveis ataques virtuais.

Mas o incidente da noite passada confundira todos os sentimentos de Clarissa, mexendo com sua vaidade, com seu corpo e sua alma. Busca afastar os pensamentos e se fixar em algum trabalho manual, pensar nos animais lá fora enfrentando o frio, nas suas plantas que estão morrendo com a geada... (...) Mas seus pensamentos teimosamente voltam... e voltam aos acontecimentos da noite anterior e seu corpo parece pedir... (...) exigir... (...) que tudo aconteça outra vez. Há uma excitação gostosa e ao mesmo tempo dolorosa que lhe toma conta do corpo e faz com que seus pensamentos voem... voem... e voem fora de seu controle.

Ela sabe que aqueles sentimentos tumultuados dentro dela, aquelas ânsias e desejos... aquele frêmito em seu corpo, que de quando em quando e na hora em que menos espera, a faz estremecer; e sente então como se deliciando outra vez pela simples lembrança dos fatos (... !!! ...) ... Ela sabe que estas reações nada têm a ver com Amor... – são apenas o "despertar de seus anjos e demônios internos adormecidos desde há 10 anos quando perdera o marido." Mas sente-se surpresa, atônita mesmo, acreditava-se já morta por dentro para tais fantasias e que seu corpo já se tornara há muito inútil e não reativo a tais estímulos.

E a noite chega. O frio continua e o céu agora acinzentado anuncia uma chuva fininha que cairá pela madrugada adentro sem pena ou compaixão dos animais desabrigados, das plantas e de tudo. É inverno lá fora. Aqui dentro, perto da lareira, Clarissa sente-se aquecida, mas continua pensativa. Olha o computador sobre a mesa e fica indecisa. Sente medo de outra vez deixar-se envolver como na noite anterior (... !!! ...) – e ao mesmo tempo, o medo maior é de fato, de que ele... (... ...) ele não apareça, não venha como prometeu. E se ele não vier (???...)... ... se não... (???) O coração bate sobressaltado... Ah! ah, loucuras de uma mulher!!!

Liga o computador como que fingindo para si mesma uma displicência que de fato não sente... (... ... /...) quer ficar assim simulando uma indiferença (... ///...) ou um comportamento normal, apenas curiosidade como sempre, mas de fato seu coração bate mais rápido... (!!!!!) sua respiração fica presa na garganta... – é a ansiedade. A mesma ansiedade de seus 15 anos, esperando o namorado na porteira com os olhos fixos na curva do caminho... aquela curva por onde o seu primeiro amor desaparecera num dia triste de chuva e nunca mais voltou.

– "Ah... que surpresa... que delícia... cá está o e-mail"... Abre entre eufórica e temerosa:

de: Guerreiro

para: Clarissa

Espero ansiosamente o anoitecer para lhe reencontrar. Você foi maravilhosa. Quero e preciso estar com você.....///...... quero viajar pela nossa fantasia até ao topo da montanha, e de lá, ver e sentir a vida diferente da nossa realidade. Você me fez feliz. ........ ////....... Espero... às... por você uin... ........

ass: "Navegador de Altos Mares"

E assim começa o sonho a tomar vulto. Clarissa fica relutante (...) mas lá dentro de si uma força maior (...) o desejo de ser amada... (... ...) ... o desejo de ser conquistada e de se entregar, faz com que vagarosamente vá colocando no icq, um a um os números do uin daquele que nem sabe ainda quem é, mas que domara seu corpo com sua força de Guerreiro e se infiltrara em seus pensamentos e na sua alma com suas habilidades de conquistador.

– Oi... você está aí? Sou eu Clarissa, autoriza por favor.

– Oi... que alegria! Pensava que não viria. Estou esperando já faz algum tempo. Como vai você?



FIM DO QUINTO CAPÍTULO - Campo Limpo Paulista - ano 2001

autora: Regina Célia de Souza

Direitos Autorais Reservados

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