Bem vindo à Clarissa

Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.

Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.

Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.

Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.

Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.

Grata pela compreensão

ReginaCelia
ReginaCelia

terça-feira, 8 de março de 2011

Clarissa e a Poetisa - Capitulo VII

Clarissa e a Poetisa

A rotina de Clarissa mudou. Agora, logo cedo corre ao jardim e cuida rápido das plantas, alimenta os animais e volta ansiosa para casa com o pensamento fixo na investigação do seu computador. Esta é a única forma que encontra para aliviar seu coração, seus pressentimentos, seus medos. Abre e encontra lindos e-mails coloridos, poesias, midis, tudo que o Guerreiro colhe na net e lhe envia. Ela sabe que tudo é copiado, mas diante destes carinhos se sente como ele mesmo a batizou: "uma deusa do amor"... "uma rainha"(...); se sente amada, desejada, possuída. Tudo parece um sonho que Clarissa quisera fosse realidade e seu espírito se nutre daquela fantasia. do sonho irreal e a cada dia se sente mais e mais presa naquela armadilha, naqueles devaneios que toda noite acontecem no computador.

Clarissa também viaja na internet e colhe poesias, midis e outras páginas lindas e adequadas para retribuir aos e-mails que lhe foram enviados. Mas (...) mas não era isto que desejava. Gostaria de saber escrever ela mesma tudo que sentia, traduzir com suas próprias palavras toda a força de seus sentimentos que são assim tão fortes, jamais experimentados e, não como os outros, utilizar textos copiados e que todo mundo já conhece na net. Então, mais uma vez recorre ao Sr. Carlos e timidamente, disfarçando a voz, ela diz:

– "Seu Carlos, fico constrangida em lhe fazer esta confidência, mas sabe (!...!) olha....., não sei como explicar...., acredita? (...) Estou com um paquera na net que me manda todos os dias e-mails lindos e gostaria de retribuir com algo assim personalizado, ( ....) o senhor sabe.... num sabe?... Não sei escrever direitinho, assim bonito, com palavras adequadas, dentro do estilo!..."

– "Estou entendendo Dona Clarissa e não se acanhe com a confidência, afinal a senhora é uma mulher livre, viúva, sozinha, tem os seus direitos. Não renuncie ao sonho. Não renuncie à esperança, pois enquanto conseguimos sonhar, ter fé e esperança, estamos de fato vivos. Mas diga-me, em que posso ajudar a pela senhora? "

– "Queria que me indicasse um livro de redação, uma professora ou professor que me ajudasse!!!! Seria possível? Conhece alguém? "

O senhor Carlos fica pensativo por alguns instantes e retorna para Clarissa:

"Veja bem, não se aprende a redigir da noite para o dia... e me parece que o seu caso é urgente. Mas... mas, conheço uma pessoa que poderá lhe ajudar a redigir os tais e-mails e melhor que eu, poderá lhe indicar poesias, livros de literatura, pois é uma pessoa que vive deste trabalho - redigir. Quer que a traga aqui?"

- "Sim seu Carlos. Traga-a aqui. Vou esperar ansiosa."

Aquela tarde, seu Carlos volta e apresenta a Poetisa à Clarissa. As duas rapidamente se entendem. Depois que seu Carlos vai embora, Clarissa conta à Poetisa assim, meio afobada. aos tropeços e um tanto emocionada, às vezes titubeante, às vezes com frases confusas o que está ocorrendo. A Poetisa ouve atenta e capta tudo em seus mínimos detalhes e vai além, penetra fundo na alma da amiga (...) compreende o drama... o sentimento.. o constrangimento devido a idade, o inusitado, o inesperado e principalmente, compreende a grande necessidade que Clarissa sente de transmitir ao amado toda a profundidade daquele momento que está vivendo.

A poetisa é uma mulher pequena, um pouco cheinha de corpo, de pele amorenada, cabelos já grisalhos e de idade compatível com Clarissa. Sensível, piegas, sonhadora, romântica e de certos modos um pouco indisciplinados, sem horas certas para comer, para dormir e fuma um cigarro atrás do outro. Embora tenha freqüentado uma faculdade e tenha sido casada e tenha filhos, vive também sozinha nesta cidade e devido a sua instabilidade emocional e sua indisciplina, estado peculiar aos poetas, não fez seu pé de meia, não tendo portanto, uma tranqüilidade financeira, tirando agora em seu final de jornada o seu sustento da prestação de serviços em redação para um aqui, para outro ali e a fazer versos para pessoas enamoradas que a procuram na cidade. Mas estes muitos versos, ela nunca os publica, depois que os vende passam a ser como propriedade daqueles que os encomendaram.

Como Clarissa, a poetisa é uma mulher de pouca vaidade, veste-se mal, um pouco por desleixo mesmo e outro tanto por falta de dinheiro. Fala alto, meio sisuda, porém abre-se num sorriso largo quando lhe falam de algum trabalho a ser executado e principalmente se for algo assim, que ela saiba fazer e goste de fazer. A poetisa é pessoa cheia de melindres, precisa trabalhar, ganhar o seu pão nosso de cada dia, mas nega-se sempre a fazer aquilo que não gosta, mesmo que lhe paguem bem. Eita, mulherzinha difícil!

Mas em relação às necessidades de Clarissa está deslumbrada. Poderia assim colocar para fora, tirar da gaveta seus papéis amassados com poesias antigas e nunca mostradas ou publicadas, outras novas mas sem serventia para ela mesma e criar mais e mais, embalada que vai estar nas narrativas daquele romance. Assim sua inspiração já meio decaída por falta de estímulos, voltaria à tona para servir às necessidades de Clarissa, pois ela mesma, a Poetisa há muito não sonha mais com um novo amor. Deixou num passado bem distante os seus próprios sonhos, suas ilusões, seus desejos e fantasias. É romântica, mas plenamente consciente de que já não é uma mulher desejável como nos tempos da juventude e apesar de poeta, tem seus pés no chão e não se embala por sonhos perdidos.

E assim, entre gritinhos, risos abafados ou escancarados e confidências mútuas, Poetisa e Clarissa se entendem, passam a falar a mesma linguagem e a partir deste entrosamento quase perfeito de objetivos e sentimentos, a Poetisa passará a ser a "sombra amiga" de Clarissa, refletindo nos seus versos e na sua prosa os sentimentos da amiga e mais recente patroa.

Clarissa se sente bem, encontrara na Poetisa não só uma colaboradora, uma professora de português e redação, mas muito e muito mais: - uma confidente, uma conselheira, uma amiga que parece entender os seus sentimentos e para quem não precisará se sentir constrangida ao relatar seus sonhos, seus devaneios malucos, suas noites de aventura, o seu precipitar num mundo de pura fantasia. Muito pelo contrário, a Poetisa estimula Clarissa a falar, participa, interpreta e rapidamente começa a passar para o papel o que Clarissa esta a lhe dizer e principalmente o que deseja dizer ao seu bem amado e desconhecido, mas que todas as noites está de plantão a esperá-la no icq.

A partir deste dia, Clarissa e Poetisa passarão a fundir e se confundirem, uma sendo o corpo e a outra a alma que respira e transpira em versos e em prosa os sentimentos da primeira.

Clarissa é uma mulher calma, ponderada, que viveu uma vida de poucos sonhos, calcando sempre seus atos na realidade e nas suas necessidades. Afetiva, carinhosa, meiga, traz no rosto a suavidade das pessoas que sentem como tendo cumprido seus deveres na vida e que olha pra frente com segurança, mas se envolveu repentinamente num edílio amoroso que a está trazendo em sobressaltos, obrigando-lhe a questionamentos internos e mesmo a temer a estabilidade emocional do seu amanhã.

A Poetisa é uma mulher extravagante, introvertida e extrovertida ao mesmo tempo, dependendo sempre dos momentos, das situações, das pessoas envolvidas e da sua predisposição interna, o seu comportamento é modificado. Foi sempre uma pessoa que não planejou, não se cuidou. Passou sua vida debruçada em livros, escrevendo textos úteis e muitos inúteis. A sua índole emotiva não foi capaz de apagar sua inteligência e nem tão pouco sua lucidez. A sua maior qualidade é saber entrar dentro das pessoas e captar-lhes a alma, sentir por elas e principalmente, saber passar para o papel estes sentimentos humanos tão complexo de amor, paixão e ódio.

Clarissa e Poetisa irão viver, então, quase em simbiose e a Poetisa como sombra amiga passará para o papel tudo que Clarissa lhe transmitir com palavras, gestos, olhares, sorrisos, e muitas vezes em lágrimas.

Naquele dia mesmo, Clarissa aloja a Poetisa em uma pequena casa que construíra para a eventual necessidade de um caseiro que ela nunca quis ter, e que se localiza a poucos metros de casa principal entre flores e pássaros, minúscula, mas aconchegante. Para a Poetisa isto é uma benção, pois devido a problemas financeiros estava em débito com o senhorio que lhe alugava um pequeno quarto no centro da cidade.



FIM DO SÉTIMO CAPÍTULO - Campo Limpo Paulista - ano 2001

autora: Regina Célia de Souza

Direitos Autorais Reservados

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