- Um Sonho - Vida presente - Vida passada
Não fora um bom dia aquele de Clarissa, muitos problemas ligados à família giraram em sua cabeça. Foi dormir com sentimentos de mágoa, de remorso, de tristeza. O peito ardia-lhe e o coração disparava. Mas, aquietou-se em seu leito, bem encolhida, pensou de si para si - "será que acordo amanhã?". O coração disparava, alguma coisa lhe comprimia o peito e a fazia sentir como se o ar lhe faltasse. Dia ruim aquele, desentendimentos, acusações, recusas, enfim, assuntos naturais em família.
Então, entre pensativa e ansiosa Clarissa adormece e sonha.
Sonha que está em uma grande casa, uma linda casa, estilo antigo, semelhante algumas que se vê em filmes de Roma ou Grécia Antiga. De fato, Clarissa não tem a mínima idéia da localização da casa, e tampouco do estilo ou época. Em princípio, no sonho, nada é dito à Clarissa, mas o próprio sonho tem um significado - Clarissa é companheira de Guerreiro, e os dois estão em processo de separação.
No sonho, como deve ser em todo sonho, Clarissa é jovem e bela; Guerreiro um garboso cavalheiro, loiro, de olhos azuis. Nunca sonhamos que somos velhos; nosso espírito ou inconsciente não aceita a velhice, a decadência da carne, o final da vida. Nosso espírito permanece jovem e esperto mesmo quando nossa capacidade mental começa a falhar. (Estas são teorias professadas por espiritualistas e psicanalistas, entretanto, como poderemos saber até onde elas são reais?)
Continuando: Clarissa se vê jovem e bela e Guerreiro também um moço cheio de vida. Os dois estão, no momento do sonho, naquela casa enorme e maravilhosa, onde mesas e marquises de mármore se estendem. Parece ser um ambiente de reunião, tal como uma sala de jantar para muitas pessoas. Guerreiro está de pé, encostado em uma destas mesas; Clarissa caminha até ele e diz:
- "Estou pensando em ir embora daqui." Guerreiro responde e pergunta ao mesmo tempo:
- "Para onde quer ir? " - Clarissa responde:
- "Para algum lugar... onde eu possa encontrar a Paz e ser Feliz."
Guerreiro responde:
- "Então, vá."... (como se isso lhe fosse indiferente)
A seguir, e ainda no mesmo sonho, Clarissa se encontra em outro ambiente da casa, o qual tem a aparência de uma ampla cozinha, com uma mesa grande no centro. Alguns degraus de acesso levam a esta cozinha, e uma mureta separa o ambiente superior do inferior. Logo abaixo desta mureta existe um tipo de valeta, muito usada antigamente, para a fermentação da mandioca, na produção de farinha. Mas, dentro desta valeta não têm mandiocas, e sim, corre uma água fresca e límpida. Clarissa senta-se perto da água e começa a molhar os pés descalços. Guerreiro, por seu tempo, está sentado um pouco acima, na mureta; o dorso nu exibe um peito forte.
Então, Guerreiro diz à Clarissa:
- "Que lindos pés você tem!... - Nunca tinha observado!"
Clarissa veste uma camisola ou vestido branco longo, o qual ela segura para não molhar. Ouvindo a declaração de Guerreiro, levanta-se ágil e faceira, segurando a saia, estende-lhe um dos pés e mostra, com um sorriso travesso:
- "Sabe por que nunca percebeu que meus pés são lindos? - Porque tivemos muito pouco de vida em comum e o amor nasce da convivência e do conhecimento. "
Clarissa não se detém aí. Aproxima-se de Guerreiro e apoiando-se em seus joelhos acaricia-lhe o braço suavemente com as mãos e continua:
- "Tivemos muito pouco tempo, fisicamente juntos, e você não pôde me conhecer o suficiente para me amar... (e Clarissa roça os lábios no braço de Guerreiro, numa tentativa silenciosa de se insinuar, de dizer "eu te amo"). Guerreiro continua impassível, olhando-a, como se olhasse uma vidraça, e visse através dela, lá longe, no futuro, os seus próprios sonhos. Diante do silêncio de Guerreiro, e de sua postura de indiferença, Clarissa resolve verbalizar os seus gestos:
- "Mas eu... eu sempre e sempre lhe amei... Ao longo da eternidade, vim acompanhando seus passos como uma sombra amiga, como irmã, outras vezes como mãe, em muitas outras como amante e conhecendo-o cada vez mais, lhe amando mais e mais... Entretanto, mesmo em situações vividas de parentesco, a minha permanência foi sempre rápida e transitória e, por isso, nunca você criou relações afetivas mais profundas comigo... Talvez existam outros e outros momentos nos quais você surgirá sempre, como alguém muito amado e conhecido... para novamente fazer parte da minha vida."
Clarissa não se detém na sua busca... no seu carinho... e num impulso pula e senta-se também na mureta e se aproxima do homem amado. Ajoelha-se e o envolve em seus braços, acaricia-lhe os ombros nus. Guerreiro, busca a mão de Clarissa, prendendo-a fortemente entre as suas, e lhe diz:
"Você ainda será muito feliz. Terá tudo que sempre desejou e buscou: amor, filhos, poder, alegrias; mas, para tanto, você precisa começar a ENSINAR OS OUTROS A AMAR... AMAR ASSIM, COMO SÓ CLARISSA SABE AMAR!..."
Clarissa acorda. Lágrimas escorrem-lhe pelas faces... o coração agora não está mais disparado; parece bater lentamente no peito... e Clarissa chora, e se pergunta - Mas como? Como vou ensinar as outras pessoas a amar? A capacidade de amar é algo que nasce e se desenvolve com a própria pessoa ao longo de sua existência. Não se ensina alguém a amar... Será que eu sei realmente amar? Para saber amar, é preciso antes que tenhamos nos sentido amados, assim como para espalhar felicidade, precisamos, antes, nos sentirmos felizes. A vida à nossa volta é como um reflexo do nosso eu interior. Será que eu sei amar? Amar o suficiente para irradiar o amor com tal força que ele atinja e contamine os outros?
Clarissa sente vontade de levantar, acordar a Poetisa e fazê-la escrever tudo! Mas, a Poetisa dorme tão tranqüila!!! - O sonho se apresenta para Clarissa como uma visão de vidas passadas e ao mesmo tempo uma predição de futuro - que talvez aconteça apenas nas próximas vidas. Será que temos, de fato, outras vidas?
Clarissa quer questionar a Poetisa que, no seu mundo de sonhos e fantasia demonstra muitas vezes uma lucidez estranha, fala de filosofias, de crenças, que leu nos livros e/ou aprendeu em grupos espiritualistas que freqüentou.
E... Clarissa adormece novamente.
Novo dia desponta. Os pássaros cantam lá fora. As galinhas cocoricam. E a cachorrinha Lila late, pedindo para abrir a porta.
Clarissa levanta-se meio tonta, e começa seus afazeres diários. Tratar os animais, regar as plantas... e... opa!... acordar a dorminhoca da Poetisa, que não tem barulho que a faça acordar antes das 10 horas da manhã.
A Poetisa acorda... espreguiça... cuida-se... toma seu café... e se põe a ouvir a tagarelice de Clarissa que naquele dia está agitada, gesticula e questiona a Poetisa - "Que faço? Que faço amiga? O que você pensa deste sonho? Foi assim, lindo! Tudo era luminoso, um lugar que se vê apenas em sonhos!
A Poetisa não sabe responder. Está preguiçosa, dolente ainda, meio que adormecida e confusa com tantos questionamentos que Clarissa colocou em suas idéias.
- "Clarissa, mais tarde eu lhe dou uma solução. Poderia me dar um tempo para pensar e confabular aqui com meus botões?"
- "Lógico, lógico, você tem todo o tempo necessário para pensar... desde que este tempo termine hoje à noite. Estou ansiosa. E quero que passe para o papel tudo que lhe contei."
Capitulo avulso - Campo Limpo Paulista - ano 2001
autora: Regina Célia de Souza
Direitos Autorais Reservados
Bem vindo à Clarissa
Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.
Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.
Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.
Grata pela compreensão
ReginaCelia
ReginaCelia
terça-feira, 8 de março de 2011
Clarissa - Um dia - Uma Noie - Sonho
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