Bem vindo à Clarissa

Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.

Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.

Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.

Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.

Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.

Grata pela compreensão

ReginaCelia
ReginaCelia

terça-feira, 8 de março de 2011

A Carta de Clarissa - Capítulo VIII

A poetisa acorda, como sempre, depois que o sol vai alto, dá-se um toque rápido nos cabelos curtinhos e vai ao encontro da patroa, que já deve estar inquieta.

Adentra a casa e encontra Clarissa sentada em frente ao computador, parada, olhando lá fora os canteiros queimados pela geada. É inverno outra vez. Inverno lá fora e no coração de Clarissa. A poetisa se aproxima e Clarissa parece não ver. Seu rosto é como se fosse uma escultura de mármore descorado, onde se vê traços suaves de uma beleza de outrora, mas agora vincados por uma rigidez pétrea. Clarissa parece tomada de uma comoção interna; (..). Antes do inverno passado, as flores eram lindas e vivas, Clarissa as plantara com amor e delas cuidara com muito carinho, mas veio o inverno e com ele os sonhos de Clarissa no renascer da juventude, na crença de um amor fantasia que acreditara ser de verdade e ao viver aquele sonho, esqueceu-se de suas obrigações e deixou que a crueldade do frio matasse as suas flores. Mas, as flores renasceram ao som e embalo da poesia do coração de Clarissa. E veio a primavera que fez tudo florir de sonho, de ilusão e esperança. E veio o verão que abrasou a alma de Clarissa, lhe afogueou o corpo em ânsias incontidas e desejos ardentes. Desejos! Ah, quanto desejo aflorou naquele verão! O desejo de buscar, o desejo de ser feliz(..). i desejo de pedir, implorar, suplicar pelo amor que partira (...): "Por favor, por favor, volta pra mim!... (...)

Em silêncio, a poetisa contempla a amiga, (...). Analisa as leves e imperceptíveis contrações faciais. "Algo muito importante está para acontecer!"... Pensa a poetisa. Ela sabe. Naquele quase um ano de convivência, aprendera a ler na alma da amiga a penetrar profundamente em suas alegrias e tristezas e sentir tal como se fossem seus próprios sentimentos. Fica indecisa entre interromper a introspecção de Clarissa ou deixá-la assim devaneando por um tempo até que se decida a falar. Uma música suave toca, o ambiente limpo e organizado da sala de Clarissa com suas paredes brancas e pintadas a cal rústico, parece dar vida ao som da música e fazê-lo ascender ao infinito.

Vagarosamente, Clarissa desvia o olhar das flores mortas lá fora e o pousa na poetisa. Seu olhar transmite uma amargura resignada e no rosto quase impassível pouco se pode perceber o que lhe vai na alma. A poetisa, em prontidão, espera.

Clarissa olha firme a poetisa e lhe diz com voz forte e convicta:

"Amiga, escreveremos hoje, o último capítulo de nossa história!"

"Último capítulo?" - pergunta a poetisa.

"Sim, escreveremos o último capítulo da nossa história. Quero colocar um fim neste sonho que me martiriza e povoa as minhas noites com luzes, mas me faz despertar nos tormentos de desejos insatisfeitos. Quero acabar com a alucinação desta espera de uma realização impossível!."

"Se você assim o quer, não posso me negar. Qual o final vamos dar aos Sonhos de Clarissa?" Pergunta a poetisa.

"Escreveremos uma carta ao Guerreiro. Uma carta, na qual lhe exporei as minhas verdades. E você, minha amiga poetisa, saberá como redigir. Sabe tudo de mim, não sabe? Não é minha "sombra amiga?" A que me escuta, que me censura os devaneios e também me joga na fantasia? - É ou não é a minha alma gêmea, que tudo vê, escuta e converte em poesia?" - Então, poetisa escreva o meu último grito de amor e depois vá embora. Parta daqui e me deixa ser eu, Clarissa, um ser que de realidades vive. Parta e não volte mais".

A poetisa, de pé ainda, baixa os olhos diante de Clarissa. Estremece.Uma convulsão interna toma conta de seu espírito. Mas como, Clarissa a está mandando embora? Como partir, depois de tão longo período de convivência em quase perfeita simbiose? Como deixar aquelas paredes brancas? Como não ter mais aquele rosto que aprendera tanto a amar? Como, não mais ouvir a voz de Clarissa a contar-lhe os seus sonhos de amor, devaneando em suas ilusões tardias? Como, ó Deus, deixar as flores lá fora? Não sentir mais seus perfumes e o brilho das cores nos canteiros de rosas? Como, ó Deus, deixar este aconchego, onde a amizade, a fraternidade e a confidência fizeram ninho?

A poetisa segura na garganta seu grito, seu soluço e olhando firme para Clarissa, diz:

"Sim, patroa, você manda. Faremos o que deseja. A poetisa senta-se então ao computador e começa a escrever:

.............. ..... ...... ....... ..... ..... ....

Meu Recanto, 03 de junho de 2001

Exatamente, hoje, meu querido "Navegador de Altos Mares, Guerreiro de minha alma" completa-se um ano que nos encontramos pela primeira vez . Era uma noite fria e eu viajava por ai (...)

Já alguns dias, venho pensando lhe escrever esta carta. Para ser sincera fiquei entre o desejo e o temor. Desejo intenso de lhe dizer como me senti estes meses todos e medo de não ser compreendida. Passei o dia de ontem, pensando e até cheguei a acreditar que vencera o desejo e que esta data passaria em branco, mas não vai passar. Preciso lhe dizer, o quanto você foi importante na minha vida. Você foi o sonho tardio, atrevido, que adentrou minha existência (...)

Os nossos contatos foram tão rápidos, duraram tão poucos meses, mas para mim, foram quase uma eternidade (...) Voltei a apreciar a poesia, a ouvir o canto do amor nas coisas simples da natureza; a acreditar em romances impossíveis; no reascender de brasas em labaredas sob cinzas mortas.

Eu sei, meu querido "Navegador de Altos Mares, Guerreiro de minha alma", para você não signifiquei quase nada. Fui apenas alguns momentos de prazer e alucinação em suas noites de vazio, Você mesmo me disse, numa madrugada fatídica em que acordando meio sobressaltada, com a sensação de ter ouvido o telefone tocar, num impulso, liguei para você. (...)

Quando me pediu para ir ao seu encontro, um certo medo se apossou do meu ser. Uma indecisão, um receio interior de confrontar-me com a nossa realidade. Mas a força do desejo e da paixão foram mais fortes e fui (...)

Ao vê-lo adentrar aquele quarto, eu não tive resistências, não tive pudores. Você era uma pessoa que eu conhecia há muito. Era o homem amado, muito conhecido que chegava de uma longa viagem. Ah, fiz um poema:

"Esperei-te debruçada na janela da vida,/olhando lá fora a noite negra e fria./Esperei-te em passos lentos, titubeantes/perdida em meus sonhos alucinantes. (...) (...) /com medo de não ser amada, nem querida./Então chegaste, em passos decididos/a porta se abre e em minha vida /tu te aportas, pra em beijos entontecidos /dominar este meu corpo, já de vencida./Olho-te, com estes olhos de apaixonada,/olhos de poeta, de tonta, embevecida /e quero tocar no teu corpo de leve /acariciar teu rosto e cabelos de neve./Ah! Ah! Vieste! e me tomaste nos braços /e num abraço, beijaste-me a boca /possuindo m’alma e o corpo de louca.....///."

Ah! Momentos de delírio, de alucinação se seguiram. Queria lhe ver, por inteiro, guardar na retina as formas de seu rosto, o som de sua voz, o solfejo de sua respiração, o cheiro de seu corpo. (...) . Mas o tempo girou vertiginosamente, e lhe vi me dizer, que precisava partir (...).

Você foi embora. Não voltou nunca mais. Não mais telefonou. Não mais escreveu uma só linha. Durante meses, ouvi o telefone tocar na madrugada como antes (...). Rodando pela internet, a cada abordagem, identificava você (...) Quase enlouqueci. (...)

(...) Agora "Navegador de Altos Mares, Guerreiro de minha alma", estou através de uma dolorosa racionalização tirando as seguintes conclusões

Não fui nada para você. Fui apenas mais uma brincadeira de internet.

Internet não é um mundo virtual. É um mundo mais que real, onde as pessoas se acreditando protegidas pelas suas telas e distâncias, não hesitam em colocar para fora todas as suas ânsias escondidas. Amor de internet é uma ilusão. Momentos em que vivemos na nossa própria fantasia e desejos inconscientes. A mulher feia se acredita linda, o homem envelhecido se acredita jovem, forte e capaz de mil e um malabarismos.. A mulher mal amada, acredita-se amada, idolatrada, querida. O homem solitário, acredita-se um dom Juan, cercado de lindas mulheres (..).

Estou lhe escrevendo esta última carta, porque quero que saiba por quanto tempo fiquei sonhando com sua volta. Fiz outro poema. São os versos da minha despedida.

"O vulto da ilusão desaparece, /a luz se apaga, /o coração amortece, /fica o vazio cheio de nada, /vazio sem lembranças, /sem momentos, /com apenas horas caladas, /minutos suspensos no ar. /Ficam saudades (..), /lembranças perdidas, /de um vulto fantasma /que caminhava nas noites /de braços estendidos, /buscando emoções não sentidas, /buscando aconchego no vazio ... /sem nada!

(...) Certo dia, depois de muito lhe esperar, mandei-lhe uma mensagem construída em versos onde se misturavam declaração, ternura e súplica:

"Escuta, no silêncio da noite /Os meus murmúrios insanos/ O arfar do meu peito/ A música suave e lenta/ Que nossas almas acalenta./ Escuta... o som do vento/ Que lá fora uiva, canta, lamenta. /É o som de meu coração que te chama... /(...) /Interessa que meu coração te reclama.../ O que importa é que meu ser te deseja/ Para em beijos, na noite me perder.../Te quero.. por favor me ama!!! / Ah!!! te amo.. com este amor selvagem/ que todo meu corpo inflama. / Por favor, por favor, me doma!!!"

Não tenho certeza que lerá esta carta. Mas não importa, se não a ler. Ficará aqui arquivada, para a posteridade (...)

Quero que seja feliz e se eu fui para você,parte de uma busca de felicidade e lhe decepcionei, não se deixe vencer por esta desilusão, vá a luta meu amor; continue a sua busca. Não devemos renunciar à realização de nossos sonhos. Quero que seja feliz.

Muitos e muitos beijos, de sua,

Clarissa.

...........





A poetisa termina a carta e a lê em voz alta e Clarissa ouve em silêncio. Não há nada a corrigir. Sente como se a poetisa houvesse arrancado de dentro de sua alma, todas as palavra desejara dizer.

"Está ótima. Pode enviar por mim?..." - diz Clarissa.

"Por e-mail ou correio comum? " - pergunta a poetisa.

"Ambos e postagens com aviso de recebimento."

Clarissa sai e se refugia no seu quarto. Precisa dormir para restaurar as forças perdidas no esforço emocional daquela manhã. Dorme o sono daqueles que sentem que nada devem à vida (...).

Acorda já noitinha, quando um céu rubro prenuncia mais madrugadas de frio. Levanta-se e olha pela janela na busca de seus animais, das suas flores, do seu mundo lá fora. Ai ela vê um vulto pequeno, franzino que passa sob a janela, caminhando devagar, titubeante. É a poetisa, com sua malinha na mão, caminha pelos descaminhos da vida e segue sem dizer adeus. Seu vulto desaparece nas sombras da noite. Uma primeira estrela brilha no céu e dos olhos de Clarissa lágrimas copiosas rolam. Ela não queria que fosse assim! Por que a poetisa teria que ir embora? Não tivera sido tão companheira? Tão amiga? Tão confidente? Por que?

Fica ainda, por longas horas, parada, olhos fixos no céu, que de avermelhado no entardecer, mais à noite brilhante e límpido, depois vai se acinzentando. É a neblina que toma conta da noite. Que frio! Onde estará a poetisa? Conseguirá viver sem ela? Sem o seu aconchego? Sem as suas críticas e os seus devaneios? Clarissa chora. Como fizera isto? Por que mandara a poetisa embora? Ficaria agora mais só ainda. Afastara de si, a poetisa e o guerreiro e junto com eles, se foram seus últimos sonhos.

Neste instante, Clarissa sente que lhe tocam as mãos num gesto de carinho e olha como que assustada e surpresa. Ah, é a cadelinha Lila que então late, alegre, balança o rabo, como a gritar para Clarissa:

- "Eu estou aqui amiga! Você não está só. Esquece. Guerreiro não existe. A poetisa era um sonho, mas eu sou real e vou sempre lhe amar.

CAPITULO VIII - Campo Limpo Paulista - ano 2001

autora: Regina Célia de Souza

Direitos Autorais Reservados

Nenhum comentário:

Postar um comentário