Bem vindo à Clarissa

Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.

Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.

Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.

Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.

Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.

Grata pela compreensão

ReginaCelia
ReginaCelia

terça-feira, 8 de março de 2011

Clarissa - E Chega a Primavera - Capítulo IX

E chega a Primavera

Clarissa acorda com filetes de sol que entram pela sua janela entreaberta. Quando a estação do frio pesado vai embora, apenas encosta as folhas da veneziana de seu quarto para gozar durante a noite da brisa que sopra de fora e ao mesmo tempo ser acordada de forma deliciosa pela luz do sol. Levanta-se e abre de vez a janela "Dia lindo! Cheio de luz!" As cores se multiplicam em seus canteiros: rosas, orquídeas, dálias, açucenas, girassóis e muitas, mas muitas violetas e beijinhos multicoloridos se espalham pelos canteiros formando os seus contornos como se fossem pequenas muretas. Contrastando com tantas cores, tijolos pintados a cal branca estão bem dispostos em losango fechando cada canteiro como um suporte às violetas. Circundando os canteiros mandou construir trilhas em tijolos naturais queimados no tom vermelho. No centro do jardim um chafariz jorra cantante uma água límpida que chuvisca sobre as flores alegres pelos beijos quentes e molhados do sol.


Clarissa respira fundo. Ergue os braços. Espreguiça. É uma preguiça gostosa de quem dormiu por longas horas, um sono calmo, sem sonhos. Se sonhou não se lembra.

Poucos minutos depois de um café rápido e simples, lá está Clarissa entre as flores e os animais cuidando de seus afazeres. Com uma mangueira molha as plantas que mais distantes não são alcançadas pela chafariz. "Ah! Mas um dia haverá de construir vários chafarizes em pontos estratégicos para que todas as plantas gozem do mesmo conforto que as outras que estão no centro do jardim". Trabalha e sonha! Sonha com grande produção de flores naquela e nas próximas primaveras; com a vinda dos netos nas férias escolares; com o seu desenvolvimento nas práticas do computador; e seus sonhos são verbalizados em voz quase poética dirigida as suas flores. Conta as suas esperanças, fala de suas saudades e fica muitas vezes olhando, tocando flor por flor como se esperasse respostas. A cadelinha Lila a tudo acompanha, ora em passos lentos, ora saltitante. De quando em vez pula em Clarissa como a reclamar atenção. E Clarissa grita pra ela: - "Calma, calma, já comeu o seu pão da manhã, logo, logo lhe darei a sua ração!. Calma... espera! Os outros precisam primeiro". E lá vão as duas com uma grande cesta de farelo de milho misturado à ração para dar as galinhas. E as galinhas cacarejam alto, a cadelinha late, corre sobre elas e Clarissa dá gostosas gargalhadas, sozinha com seus bichos, suas flores, pois tudo naquela manhã de Primavera parece ter acordado em festa.

Nove horas da manhã. Acabou a primeira jornada do dia e volta-se então para o interior da casa e busca pelo seu computador. Responde e-mails. Escreve um pouco. Viaja por algumas páginas costumeiras e assim seus pensamentos vão ao futuro, voltam ao passado, lembrando quanto de novidades do mundo lá fora essa tela lhe trouxe. Quantos momentos de paixão, de delírio e sedução, mas que agora, mais parece a ela, Clarissa, tela morta, sem significado, sem objetivos. Nada que valha a pena ver. Nada que entusiasme, deslumbre ou emocione como antigamente. A internet para Clarissa é um mundo aberto para o mundo e no qual ela não encontra mais respostas para suas emoções. Os muitos e-mails que recebe todas as manhãs vêm de pessoas que ela não tem a mínima idéia de quem são ou onde moram. Os muitos amigos e amigas que fizera na net, se espalharam pelo mundo real mesmo ou acharam seus pontos de divertimento em outros locais da net e se afastaram. Poucos ficaram. Estes poucos, Clarissa atende e responde os e-mails com todo o carinho que tem por eles. Mas, todos distantes. Todos fora do alcance de suas mãos e de sua voz. Alguns poucos se tornaram mais íntimos, principalmente, amigas e estas sim, até se falam ao telefone.

Primavera! Lá se foram mais um outono, mais um inverno, mais um ano de vida. Primavera! E o sol ilumina toda a casa por dentro. As paredes pintadas à cal branca agradecem a luz e resplandecem dando mais claridade ainda ao ambiente interno da pequena casa. A temperatura é tépida, gostosa, tudo leva a um sentimento de paz por todos os cantos. Mas existe um SILÊNCIO ambiente que incomoda Clarissa – o silêncio da SOLIDÃO. O silêncio da falta de um AMOR. O silêncio gritante da SAUDADE.

Levanta-se do computador e senta-se próxima à janela que dá para a parte da frente da casa, de entrada singela e de onde pode ver aquela paisagem lindíssima de uma estrada longa e sinuosa a qual a Poetisa chamou de "A Curva do Caminho". O tempo corre rápido e já se vão 4 meses desde a partida da Poetisa. Os olhos de Clarissa se fixam então na Curva do Caminho e seus pensamentos viajam.

"Oh amiga Poetisa, onde está você? Onde está a sua poesia que cantou e encantou os meus dias, embalou os meus sonhos e minha fantasia? "

"Oh amiga Poetisa, onde está você? – Que saudades eu tenho de sua simplicidade, do seu riso, dos seus gritinhos pela casa; da emoção do seu olhar ao compartilhar os meus sonhos de amor irrealizáveis? "

"Amiga Poetisa, onde está você? – Onde estão seus versos? Aqueles que fazia para o meu amado, gritando-lhe minha paixão, minhas decepções, ou esperanças vãs? "

"Amiga Poetisa, onde está você? – Parece-me ainda, ouvir sua voz, declamando pela casa os versos já feitos e em passos saltitantes, lágrimas escorrendo pela face – como se os sentimentos fossem não meus, porém como se todos fossem tão somente seus – a perguntar-me ansiosa: Gostou Clarissa? – Traduzem o que sente, o que me contou? Traduzem?"

"Oh amiga, esquece o que lhe fiz! Esquece que lhe mandei embora e volta. Volta. Vem encher outra vez esta casa com sua voz, com seus versos, sua música, seus gritos, sua rebeldia e ao mesmo tempo esta ternura que fica escondida quando seu rosto se cobre de uma sisudez repentina, expressando marcas que a vida lhe fez!. Esquece amiga, que lhe mandei embora e volta. Preciso de você, aqui bem perto de mim, para novos versos construir e o silêncio total desta casa fazer partir."

"E você Guerreiro, Navegador de Altos Mares, Guerreiro de minha alma, onde está? Sinto saudades! Saudades de você. Da sua altivez e da sua mesquinhez."

"E você Guerreiro, onde está? Navegando por outros mares, turbulentos como gostas para levantar os seus mastros e em grito de guerra, dominar com suas estratégias de quem dá, entrega, busca, oferece, para depois da posse – bater em fuga abandonado as terras conquistadas, pois tudo que lhe interessa de fato é a busca em ALTOS MARES!"

"Ah, Guerreiro, mas mesmo assim, sinto saudades. E por que então, também, lhe mandei embora, em versos que autorizei a Poetisa para escrever? "

"Ah, Guerreiro, por que lhe mandei embora, se lhe amava tanto e amo ainda, no silêncio de meu coração? "

Tudo porque:

Cansei de ser uma TERRA CONQUISTADA e ABANDONADA ou AVE APRISIONADA e LIBERTADA e/ou ainda FERA SELVAGEM DOMADA e após a POSSE – REJEITADA PELO DOMADOR.

Cansei de ser POESIA ESCRITA NA PRAIA – esperando o regresso de seu barco – para ser lida sob o calor de um sol escaldante, sonhando então matar outra vez sua sede com água límpida e fresca que brotaria da areia como um milagre que só o amor é capaz de compreender.

Clarissa está perdida em seus pensamentos – vagando... vagando quando assim surpresa, seus olhos se alongam pela curva do caminho e se detêm sobre um pequeno vulto que vem vindo.. caminhando, devagarzinho como se quisesse se assegurar de estar na curva certa.

"Quem será que vem lá?"

"Céus! A Poetiza... lá vem ela.. de volta. "

Clarissa não pensa, sai correndo ao encontro da Poetisa. Agora a Poetisa voltou e Clarissa retomará por certo os seus sonhos. Auxiliada pela Poetisa recomeçará a escrever a sua estória. A estória de um amor, que morto renasce todos os dias, como sol que se põe todos as tardes para renascer todos os dias em novo alvorecer.

OH POETISA.. VENHA.




FIM DO CAPÍTULO NONO - Campo Limpo Paulista - ano 2001

autora: Regina Célia de Souza

Direitos Autorais Reservados

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