Ah! A vida não é um sonho! Mas como viver sem sonhar? Viver assim, sozinha, longe de todos, apenas olhando os campos que verdejam numa extensão sem-fim, ou ouvindo cantos de pássaros que sobrevoam as copas das árvores numa algazarra contagiante. Viver do silêncio que se faz ao redor de si mesma, ou tão-somente de um miado de gato ou do latir de um cão, do cacarejar das galinhas, e ouvir os sons do vento nas noites de solidão total.
Após uma noite de silêncio, de solidão e de frio na própria alma, vem um novo dia; e o sol nasce tão bonito, clareia os espaços, ilumina a vida que palpita lá fora. Clarissa sai do aconchego morno quase-frio de sua cama e dá bom-dia à natureza, cuida dos seus animais, do seu jardim, do seu pomar. Fala com suas flores, conta do seu vazio interior, acaricia a cadelinha que, meiga, lambe-lhe as mãos e esta sim, tem um calor contagiante que lhe aquece o coração. Clarissa grita pelas galinhas que a atendem, vindo bem perto dela comer os grãos de milho espalhados pelo chão. Estas são horas gratificantes, nas quais sente como se a vida valesse a pena. Tudo, o seu jardim, o seu pomar, os seus animais vivos são como parte dela mesma... seu mundo particular.
Os dias passam todos do mesmo jeitinho: o sol faz seu rodízio; nasce, se levanta, faz a curva do céu e se põe. A noite cai... a lua vem devagar por detrás dos montes, mas às vezes não vem; as estrelas brilham e as luzes da casa se acendem para iluminar Clarissa que se senta agora para, com seu computador, dar uma volta lá fora, num mundo fora do seu e que ainda não conhece, o mundo virtual criado pela internet.
Entre erros e acertos, vai virando páginas, umas interessantes, outras muito tolas e Clarissa fica a imaginar porquê foram feitas. Tem vontade de desistir – "Pra quê, nada daquilo a interessa... onde está o interessante na internet e que todo mundo fala?"
Mas mesmo um pouco decepcionada, Clarissa vai se adentrando à internet, buscando novos interesses. Visita o mundo: lê poesias, recados, ofertas comerciais, ouve música... e... e... nada encontra assim de especial. Onde estará o especial? Ela não sabe. Mas continua.
Clarissa não consegue encontrar o que todos dizem e resolve solicitar ajuda a seu professor de informática.
– Seu Carlos, onde encontrarei algo assim interessante nesta internet? Pois, pois... ainda não vi nada que me interesse de fato.
E foi por esta observação, que Carlos preparou-lhe uma relação bem trabalhada de vários sites os quais poderia visitar e de algumas salas de bate-papo especiais para pessoas de faixa etária acima de 50 anos.
E então Clarissa, numa noite qualquer se adentrou por uma sala de Chat. Entre erros e acertos, acertou a sala e entrou. O primeiro dia, somente observa... o segundo dia, tenta falar com algumas pessoas e no terceiro dia, lá está Clarissa fazendo parte do grupo, falando com a maior naturalidade. Falando e ouvindo (lendo e teclando), pessoas que falam de si, que falam dos outros, que comentam de tudo... um tudo que é um mundo estranho para Clarissa... um mundo lá fora. Um mundo que excede as paredes de sua casa, de seu círculo de amigos pessoais e se torna na internet quase infinito, longe e perto, ao alcance da mão, mas quase fora da capacidade simples e ingênua de Clarissa... E ouvindo e falando... e falando e ouvindo (teclando)... Clarissa penetra, real e definitivamente no MUNDO DOS SONHOS... DA ILUSÃO... DA REALIDADE VIRTUAL.
No chat "encontrodeamigos+amigos", Clarissa faz o seu primeiro contato de amizade virtual com uma alemã de 54 anos, Angélica, pessoa sempre muito alegre, expansiva, de muita conversa, atende a todos e a todas com uma solicitude sem limites. Angélica adora poesias, música e principalmente passar e-mails. Pede à Clarissa seu endereço eletrônico e já começa a mandar páginas lindas, com música, poesia e muito colorido, as quais Clarissa, cuidadosamente, arquiva.
Em segundo lugar conhece Luana, uma carioca que adora artes, e-mails coloridos, criação de páginas de internet e colecionar fotos de flores.
A partir de então, muitas outras amizades são adquiridas e Clarissa anota os nomes em seu caderninho do outlook e também na agenda de mão para não esquecer. Se não anotar como irá se lembrar dos apelidos de todas e principalmente em alguns casos, relacionar os apelidos com os nomes verdadeiros? Nomes estes colhidos ao longo do tempo e do evoluir da intimidade.
Conhece também Rosa, uma paulista de 50 anos, alegre, jovial, cheia de energia, secretária bilíngüe, que todas as noites está a postos no chat com seu carisma todo especial, cativando todos os homens que visitam a sala.
Depois aparece a Rubra, outra paulista de 50 anos, viúva, também alegre, falante, que entra pela sala sempre distribuindo beijos, abraços e conta estórias mirabolantes.
E do Rio de Janeiro, Catita, Marina, Eloísa, Janaina, e muitas outras espalhadas de leste a oeste, de norte a sul deste nosso Brasil brasileiro.
O grupo é formado em sua maioria por mulheres. E os homens? Onde estão os homens? Os poucos que adentram a sala fazem curta estadia, e buscam, geralmente, um relacionamento virtual ou um papo mais aconchegante; e o tal objetivo, sendo encontrado, refugiam-se nos icqs ou mensagens instantâneas e/ou salas apropriadas de sexo virtual. Geralmente eles, os homens, não estão a fim de longos papos, de trocar idéias, fazerem discursos ou tricotarem como acontece entre mulheres. No chat as mulheres tricotam a vida alheia, falam de música, de poesia, cinema, filhos, netos, amigos, namorados, ex-maridos, maridos, trabalho, dores, saudades, alegrias, esperanças... de tudo... e sonham! Protegidas pela pseudo-virtualidade fazem-se de lindas, de jovens, de fortes, arrebatadoras, sensuais, conquistadoras, conquistadas. Esquecem a própria idade e o espelho da mente lhes mostra a si mesmas sem rugas, sem cabelos brancos, e ativas, capazes de correr, dançar como bailarinas, leves e instigantes, tal como eram em seus 15 ou 20 anos... e a fantasia alça vôo... vence fronteiras, alcança o ilimitado, o inatingível. E falam entre si (teclam), contam verdades, mentiras, realidades de suas vidas e inventam, criam situações virtuais diversas. São momentos de fantasias, muitas fantasias alegres, tristes, esperançosas, desgostosas e ali no chat se põem para fora os sentimentos de amor, ódio, confiança, desconfiança, ou seja, "os anjos e os demônios interiores ficam soltos". É como se fosse um imenso clube de portas abertas para um mundo total, sem fronteiras, mas ao mesmo tempo, como se fosse um cantinho aconchegante de uma sala de terapia grupal, onde todos deixam fluir de dentro para fora aquilo que os incomoda e buscam com avidez a satisfação dos sonhos não alcançados na vida real.
FIM DO TERCEIRO CAPÍTULO - PARTE 1 - Campo Limpo Paulista - ano 2001
autora: Regina Célia de Souza
Direitos Autorais Reservados
Bem vindo à Clarissa
Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.
Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.
Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.
Grata pela compreensão
ReginaCelia
ReginaCelia
terça-feira, 8 de março de 2011
Clarissa - Primeiros Passos no Mundo Virtual - Capitulo III
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