Clarissa vivia em seu mundo. Um mundo pequeno, de poucos amigos, poucos parentes, pouco de tudo, dinheiro contado, horas arrastadas e trabalho.
Mulher de pouca vaidade, de poucos sonhos. Os muitos sonhos ficaram lá atrás, no passado, na infância, na juventude. Resignara-se... 56 anos vividos, muito vividos, não sabe ela dizer se bem ou mal vividos, mas passados entre o trabalho, os poucos estudos, os filhos, o marido e, por fim, a solidão. Filhos casados, trabalho acabado. Vida sem objetivos. Dias calados. Horas que se arrastam na busca do nada ou de tudo que ficou no passado. O futuro é uma névoa que se fecha com uma cortina de fumaça, sem esperas, sem projetos.
Filhos criados, considerava-se com as suas obrigações cumpridas. Então, era hora de ir viver os restos dos seus dias... numa chacarazinha, perto da cidade, onde houvesse facilidade de comércio, mas não precisasse suportar o ronco dos carros na rua, o cheiro de gasolina, o tumulto das pessoas.
Clarissa foi, então, para o seu canto, na sua chacarazinha, plantar algumas flores. Este era o seu último sonho: ... ... um jardim... um pomar... um cavalo... uma charrete... uma casa ampla e arejada... onde os netos pudessem vir correr nas tardes de domingo.
Então e assim, lá foi ela para seu canto... o seu cantinho... onde talvez, de novo, pudesse voltar a sonhar. E sonhar com o que? Oh Deus!... que tipo de sonhos pode ter uma mulher cuja beleza já desfalece... os ímpetos da mocidade se arrefecem... as forças físicas enfraquecem... o brilho dos olhos se amortecem?
Ah!!! Mas Clarissa queria sonhar...
Sonhar com um jardim, remexer a terra molhada da chuva... acertar os canteiros... plantar uma mudinha... regá-la todos os dias, e sonhar... sonhar com a flor que desta planta um dia nascerá... se espreguiçará ao sol das manhãs, e muito dengosa, se deitará nas tardes sob o caule, cansada do sol, sapecada pelo vento... e assim, esta mesma flor, agora tão linda, morrerá poucos dias depois, já velha... arrefecida. Toda a vida na natureza imita a vida humana. Ou será a vida humana que se assemelha a vida da natureza. Tudo nasce, faz seu trajeto cresce, se reproduz, envelhece e fenece. Cada um no seu próprio ritmo.
Mas Clarissa, apesar dos anos, do arrefecimento físico, queria sonhar. Sonhar com grandes canteiros floridos... com a água da biquinha fazendo um barulho gostoso à noite. Sonhar com o sol que nasce de manhã e lhe ilumina a casa por fora e por dentro, com um brilho sem igual... aquecendo-lhe o coração já quase morto.
Ou então, se não sonhar, lembrar o passado... os dias de luta, as crianças pequenas... o marido cobrador e resmungão, sempre querendo mais e mais... porém, oferecendo tão pouco de seu afeto, de sua ternura de homem... E homem tem lá ternura para dar? Sim, eles têm ternura, afeto, mas se fazem de fortes, durões e acabam se tornam pessoas resmungonas.
Lembrar da luta, das esperanças da juventude, dos sonhos guardados na gaveta da mente e muitos não realizados... e daqueles que foram realizados a tanto custo!!!... daqueles planos de vida, que ficaram guardados em outras gavetas, as dos sonhos, somente guardados para sempre.
E lá... em sua chacarazinha (pequena, menos de mil metros, com uma casinha arejada, mas acanhada), deixou-se ficar Clarissa enlevada em seus pensamentos, longe de tudo... sozinha consigo mesma. Os seus desejos eram mornos, apagados, quase não sentidos, adormecidos pelo tempo. Há quantos anos deixara de sonhar? E os desejos? Quando deixara de desejar? Há quanto tempo deixara de pensar em amor, sexo... vaidade... passeios, viagens?
Certo dia, indo à cidade, encontrou-se com algumas pessoas e durante as conversas, uma insinuação: - por que ela, Clarissa, não comprava um computador para controlar a produção de sua chácara e quem sabe também se divertir e de alguma forma ter contato com o mundo lá fora?
Voltou para a sua chacarazinha pensativa: - "é mesmo... poderia sim..." E inclusive quando menina e mocinha gostava tanto de fazer poesia... por que não um computador, onde colocaria suas recordações e quem sabe escreveria um livro (de poesias, ou de contos, ou variado)... quem sabe?!!!"
E Clarissa compra o computador. E de mais a mais, o computador serviria para que ela controlasse as despesas da chácara e até avaliar se aquela atividade das flores, de fato, estava ou não a lhe render lucros.
Mas como iria manusear tal máquina? Era mulher de pouca cultura, fizera o ginásio, mas depois... a vida, os filhos, e outras coisas não a deixaram se dedicar a algo mais.
Enfim, Clarissa comprou o computador e começou a freqüentar uma escola de computação, para ter os princípios básicos.
FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO – Campo Limpo Paulista - ano de 2001
autora: Regina Célia de Souza
Direitos Autorais Reservados
Bem vindo à Clarissa
Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.
Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.
Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.
Grata pela compreensão
ReginaCelia
ReginaCelia
terça-feira, 8 de março de 2011
Clarissa no mundo dos sonhos - capítulo I
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