Confidências n. 1
de Clarissa para a Poetisa
Clarissa e a Poetisa resolvem fazer um passeio vespertino pelo jardim. As flores se mostram alvissareiras nesta época do ano. Uma chuva miúda se alterna com um sol tênue, estimulando o crescimento das plantas e o desabrochar dos botões. Muitas rosas, muitas violetas e girassóis se erguem, alegres, vibrantes, recebendo o toque carinhoso de beija-flores que andejam esvoaçantes pelo jardim inteiro. E não faltam as abelhas que vem sugar o pólen, matéria-prima para a sua fabricação de mel. Clarissa caminha devagar, pensativa, mas prestando atenção, porque embora as abelhas estejam acostumadas ao seu cheiro e não ataquem, ela Clarissa fica sempre temerosa de uma picada, pois é alérgica a estas coisinhas deliciosas, chamadas "abelhas".
Caminham em silêncio. A Poetisa sempre respeita os momentos em que Clarissa deseja se calar, pensar, remoer seus sentimentos de saudades, criar sonhos mirabolantes, ou simplesmente, não pensar em nada.
Mas o silêncio nesta tarde parece se prolongar mais que o costume entre as duas. Então, a Poetisa resolve abordar Clarissa.
- Clarissa, algum problema?
- Sim, amiga, alguns problemas. Estou aqui remoendo lembranças.
- Lembranças? Das crianças (filhos)?
- Estou remoendo lembranças a cerca de tudo.
- Não quer abrir seu coração? Falar a esta sua amiga o que a preocupa? Quem sabe posso ajudar.
- Você, sempre, pode ajudar, mas também, pode atrapalhar. Você fantasia demais Poetisa, cria poesia onde não existe; coloca um toque romântico em gestos banais... e estimula os meus sonhos, faz crescer as minhas crenças.
- Mas, por outro lado, muitas vezes, amiga Poetisa, você nem parece poeta, tão fria e lógica é nos seus raciocínios. Isto é formidável. Sua capacidade de romancear e logo em seguida entrar na fria realidade deste mundo. Admiro você. ... (fazendo ar de riso)... acredite... acredite... Por que eu iria lhe mentir?
- Bom... bom... muito bem... Se você me vê assim, conta-me o que vai em sua alma.
- Acho que preciso contar... tem muita coisa se revirando aqui dentro da minha cabeça e que precisam se equilibrar com uma boa dose de crença e um dose dupla de realidade. Por que de fato, os problemas que se reviram em minha cabeça, se misturam de tal forma que não consigo chegar a um consenso se eles são reais ou se minha mente criou.
- Oh Clarissa, fale, se não servir pra se chegar a uma conclusão, pelo menos você tira isto dai de dentro. Sabe que pode confiar em mim.
- Lógico que sei amiga. Você é aquela amiga, única amiga, na qual posso confiar, pois é como se eu falasse comigo mesma e tem mais, você lê os gestos, entende os meus tiques, percebe e decodifica até os meus suspiros. E, em verdade, faz tempo que não paramos as duas para trocar nossas confidências e .... entretanto, eu gostaria que você me ouvisse, sem me interromper, sem me questionar. E, se no final você tiver alguma conclusão palpável, me diga, senão guarde tudo no seu coração, ou simplesmente, faça como sempre - transforme em poesia (rindo meio acanhada).
- Então fale. Estarei aqui, em completo silêncio, apenas ouvindo.... (os olhos da Poetisa são firmes - sem questionamentos, apenas sinalizando a sinceridade que sempre morou dentro dela e a sua profunda afeição por Clarissa).
- "Amiga Poetisa, lembra quando você foi embora? Lembra?" - A Poetisa sinaliza com a cabeça que sim. Clarissa continua...
"Pois é... pois é... eu lhe mandei embora porque eu achava que sua presença me estimulava sempre a acreditar num sonho impossível... num sonho de amor irrealizável. Pensava que afastando você e ficando sozinha, eu voltaria a ser aquela mulher de antigamente, com os pés no chão, cuidando somente de coisas aqui, bem materiais."
"Então você foi embora, e o silêncio total passou a reinar nesta casa. O jardim já não era o mesmo, e as flores pareciam morrer de sede, embora eu as regasse todos os dias. Os pássaros mudaram seus ninhos e de manhã eu já não os ouvia como antes. As abelhas deixaram de visitar as flores e as colméias ficaram secas, esturricadas ao sol. A água do lago, onde está a fonte, criou um lodo verde, ficou parada, pesada e não subia mais espontaneamente, como antes para me ajudar no trabalho de molhar as plantas. Eu precisava ir lá e força a água a subir acionando as manivelas... aquela árvore da curva do caminho que você gostava tanto, parecia pender sobre a estrada, com galhos secos, folhas cada dia mais amareladas. Eu caminhava pela casa como barata tonta, buscando um som, um perfume, uma voz, um grito e ... nem o eco de minha própria voz eu era capaz de ouvir."
"Junto com você tinha ido embora o sonho. Guerreiro era uma dor abafada dentro de mim. Antes, por pior que tenha sido o desfecho de meu romance com Guerreiro, você com sua poesia conseguia criar hinos ao amor... ora hinos tristes, ora cheios de uma fantasia alegre e de esperança. Mas ai, sem você, Guerreiro passou a ser apenas uma dor profunda, não mais uma esperança, não mais um canto."
"Esta solidão profunda me fez voltar ao chat 'Amigos+Amigos.com'. Tentei rever os amigos, conversar através da internet, fazer-lhes confidências e ouvir suas confidências. Lá estava sempre a Alemanzinha, a Rúbia, a Andréia e outras. Aparecia cada dia pessoas diferentes, algumas de bom papo outras pessoas agressivas e o chat que eu tanto admirava começou a receber também pessoas mal-educadas, que buscavam apenas sexo por sexo, sem respeito ao sentimento do outro. Mas... de qualquer forma, havia eu voltado para a roda de amigos virtuais, e passava com eles todas as noites algumas horas agradáveis, de bate-papo, confidências etc.
Mas.... apareceu no chat 'amigos+amigos.com" um sujeito usando o nick de Guerreiro. Bom, este nick de Guerreiro havia sido nós (eu e você) que havíamos dado ao meu amado... mas ele de fato, não se chama Guerreiro e eu nem tivera tempo de contar-lhe que, cá entre nós duas tínhamos lhe dado o nome de Guerreiro. Ele sempre que entrava, ia para um canto, conversar com uma tal de "L...". Esta por sua vez, agredia-me com palavras de baixo calão... mandava-me sair da sala... e eu tentei até brincar com a situação. Ficava muito pensativa... seria o próprio Guerreiro? Será que algum dos nossos escritos (poesias) tinham chegado até ele, o que o fizera se identificar e agora vir ao chat para me infernizar?
"L..."... ia ao mural e deixava recados a ele... e deixava recados pra mim.. sempre em tons ameaçadores, agressivos e pornográficos.
Todas as noites, meu telefone tocava. Tocava e eu atendia e não tinha ninguém. Ficava pensativa.... será que eu sonho que ele está ligando? Seria o meu desejo que me fazia acreditar que o telefone tocava?
Um dia, eu resolvi retornar o toque do telefone, para ele Guerreiro. Mas, não tive coragem de ligar no apartamento dele... disquei então para a chácara... parece idiotice fazer uma coisa destas, como poderia ele estar na chácara as 4 horas da manhã. O lógico era que ele estivesse em seu apto na Frei Caneca. Mas, meu coração mandou ligar para a chácara e assim, eu o fiz.
O telefone tocou uma única vez e ele, em pessoa, Guerreiro, atendeu. Era a primeira vez que eu falava com ele depois de nosso rompimento intempestivo. Era a primeira vez que eu, tinha tido coragem de discar aquele número de telefone. Nunca ligara antes, embora soubesse de cor o número do telefone. Você sabe, amiga, que eu sou assim. Eu tinha medo de ligar e ser rejeitada. Eu tinha medo de ligar e ouvir o que eu não queria ouvir. Mas... ele atendeu.
Perguntou-me logo de início o que eu queria... e.. eu timidamente... com a voz quase sumida na garganta, disse - "estou com saudades de você..." - ele, sem pestanejar, respondeu-me de pronto... "sinto muito... mas não posso dizer o mesmo, pois você não significou nada na minha vida... foi muito pouco o que houve entre nós.. você não acha?..." Fiquei assim, parada, segurando o telefone por alguns instantes... e desliguei. Não tenho certeza se eu disse mais alguma coisa... ou se eu não disse nada... o choque daquela resposta ficou gritando tão alto dentro de mim que abafou qualquer outra lembrança que eu poderia guardar daquele momento.
Não consegui voltar para a cama. Não sei também se chorei... fiquei meio passada, transtornada, não consigo me lembrar das minhas próprias reações.... sentada eu estava, sentada continuei até amanhecer o dia. Então levantei... fui até a cozinha, fiz um café bem forte... voltei ao quarto, abri a gaveta e peguei um objeto que ele me havia enviado pelo correio... estava ainda na caixa, pois não me servia de nada... objeto inútil para uma mulher que sabe o que quer. Peguei o objeto, coloquei numa sacola de supermercado, dentro de outra sacola e dentro de mais outra sacola... muitas sacolas... amarrei bem... e sai.
Fui caminhando até a quitanda... comprei dois Paes... voltei caminhando ao longo do rio na estrada... e então, neste momento, eu me lembro bem, que eu chorei. Chorei muito. Todo o meu corpo sacudia e às vezes eu pensava que minhas pernas iriam se dobrar e eu cair ali, e que iria morrer na beirada do rio. Mas continuei caminhando... caminhando ao longo do rio... passei por nossa casa e fui adiante.. fui adiante... até encontrar um local onde o rio era mais largo e mais profundo... e ali eu rezei... ali eu implorei a Santa Catarina que arrancasse do meu coração aquela dor... e joguei o objeto muito bem acondicionado dentro do rio...
Voltei para casa. Tomei um café preto, comi um pedaço de pão e fui ao computador. Entrei na site dos 'amigos+amigos.com'... entrei por entrar, porque aquela hora da manhã, 9 horas da manhã, de um domingo, dia 3 de dezembro de 2000, com certeza não tinha ninguém por lá, pois o movimento no mais de 50 se restringe sempre ao período noturno, entre 23 horas e 1 hora da noite. O resto do tempo, o site nunca tem ninguém. O mural também somente funciona em determinadas horas. Entretanto, entrei. E fui ao mural... tinha um recado para mim... era de "L ..." que me agredia, me chamava de vagabunda... e outras coisas. Como você sabe, não suporto desaforos calada... respondi. Resolvi olhar o chat.. nem sei porque.. e por absurdo que possa parecer, mas na hora, no estado de transtorno que eu estava, nem me dei conta de que era impossível ter alguém na sala........................ ................ ............... mas tinha!!!!!!!!!......... nada menos que 12 pessoas........... a Alemazinha.. a Andreia... a Rubia... um tal de Fred (que parece que era o Guerreiro com outro nick)... e muitas outras conhecidas e desconhecidas............ e "L...."... "L..." estava na sala.
Quando entrei, ela me abordou rapidamente... parece até que me esperava - me falou poucas e boas... muita coisa.. e eu revidei na mesma altura... e não foi legal. Acredite, amiga Poetisa, não foi legal, tudo que aconteceu naquela manhã na sala dos 'amigos+amigos.com'. Todas as outras ficaram assistindo, como meras expectadoras, sem mencionarem nada.. sem dar opiniões... apenas a Alemanzinha me aconselhou... saia Clarissa... saia da sala, ... deixe ela falar sozinha.
Sai. Voltei ao mural. E lá esta "L..." outra vez me agredindo... falando coisas absurdas... coisas sem nexo que eu não conseguia entender. Falava até em suicídio e etc... Então, sem perceber, dei uma de boa samaritana, e tentei acalmá-la. Nem sei porque fiz isto.
O meu coração ainda bate acelerado ao me lembrar daquela maldita manhã. Daquele meu ato irrefletido de ligar ao Guerreiro às 4 horas da manhã. Pra que fiz isto? Pra que? Podia ter me poupado de tal desgosto.
Naquele dia, senti muito a sua falta amiga Poetisa, para lhe contar, desabafar e deixar que do acontecimento você fizesse algum poema tipo tragédia grega... (agora, me dá até vontade de rir um pouco... de quanto fui ingênua...)."
A Poetisa continua calada, ouvindo atenciosamente os relatos de Clarissa. Por dentro, ela a Poetisa, chora... chora pela amiga, mulher que nunca se deu ao desfrute e que o único pecado que cometeu foi acreditar na possibilidade de um amor tardio... e principalmente, como iniciante de internet, pensar que os homens ali viessem procurar por relacionamentos sérios.... Pobre Clarissa!.... Pensa a Poetisa.
- Amiga Poetisa... estou um pouco cansada e gostaria de deixar para amanhã o final dos meus relatos, pois tem muito mais que eu quero contar.
- Sim Clarissa, vamos voltar para casa, pois a noite já desce e aqui fora podemos ser picadas por pernilongos... e você com esta sua alergia poderá ter complicações.
Vamos. (as duas numa só voz).
FIM DA CAPÍTULO N.10 - Campo Limpo Paulista - ano 2003
autora: Regina Célia de Souza
Direitos Autorais Reservados
Bem vindo à Clarissa
Acesse Clarissa NA LATERAL DO BLOG que estão na ordem correta, do capítulo I para o último.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa é a estória de uma mulher de mais de 50 que se afasta de seus familiares para viver uma vida solitária no campo, entre flores, animais e a natureza.
Clarissa era para ser um poema em texto sem rimas, sem métricas, por isto a imagem da poetisa.
Espero que você, leitor, goste, critique, e passe aqui também a sua emoção.
Quando eu fiz este blog com o meu livreto "Clarissa" não tinha experiência em blogs e não sabia que ele acabava sempre mostrando a ultima postagem e fiz ele normalmente. Depois tomei consciência de que ninguém pode ler um romance do ultimo capítulo para o primeiro, portanto, oriento voces a LER CLARISSA seguindo o menu lateral que foi colocado na sequência crescente.
Grata pela compreensão
ReginaCelia
ReginaCelia
terça-feira, 8 de março de 2011
Clarissa - Confidências - capítulo X
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário